“Quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi…”

(canção de Caetano Veloso)

São Paulo, Sampa, SP. É mesmo difícil de entender. Uma selva de pedra cheia de atentados urbanísticos e outras tantas joias da história da arquitetura. Os helicópteros e a carroça do ferro-velho, as lojas de luxo e as favelas. Uma cidade cheia de contrastes como o próprio Brasil. Uma área metropolitana com 20 milhões de habitantes. 20 milhões! Duas vezes a população de Portugal. Não admira que São Paulo tenha uma energia particular no meio de todo aquele caos.

20 milhões de pessoas são muitos sonhos, muitas lutas, muitas aspirações, muita coisa junta num mesmo lugar. Ou se ama ou se detesta.

 

Coisas básicas:
Paulista – Paulistano:

Paulista é a pessoa natural do Estado de São Paulo. Paulistano é o natural da cidade de São Paulo. É isso mesmo, Como se já não bastassem os tais 20 milhões em Sampa, o estado de São Paulo é maior que, digamos, a França e é responsável por boa parte do PIB do Brasil.

Caipirinha-Caipiroska:

Caiprinha faz-se com cachaça, uma aguardente de cana típica do Brasil. Caipiroska faz-se com Vodka. Saquerinha com saquê,é particularmente boa com frutos vermelhos em vez do limão. Quem me disser que caiprinha leva Rum, é um ovo podre.

O centro:

O centro é o centro histórico de São Paulo, o Centrão como lhe chamam. Não é o centro geográfico da cidade, não procure o “centro” no meio do mapa de São Paulo que lhe deram no hotel. No meio do mapa vai encontrar com sorte o Itaim Bibi, o novo centro financeiro/ residencial da cidade. Ou o parque Ibirapuera. O Centrão, está lá para o canto superior direito, quase a sair do mapa…

O superlativo:

Em SP adoram um superlativo, é quase carinhoso. O centro é o centrão, o ônibus é o busão, um bom filme é um filmão, um curso intensivo será um intensivão e por aí fora…

24 horas em São Paulo

Se há uma cidade onde se pode fazer um especial 24h em qualquer dia da semana, todos os dias da semana, essa cidade é São Paulo.

Vamos assumir que foi a São Paulo em trabalho e decidiu ficar para o fim de semana. SP ainda é afinal, a capital financeira da América Latina. Uma NY da América Latina! A nossa proposta para as próximas 24h começa numa sexta-feira a noite.

Sexta-feira:IMG-20151023-WA0005-01

19.00h Happy hour. São Paulo tem uma cultura muito forte de happy hour. Há literalmente um boteco em cada esquina em todos os bairros.
Se a sua viajem de negócios o levou ao eixo financeiro Av. Faria Lima/Itaim/ Vila Olímpia os clássicos incontornáveis da zona são o Vaca Veia, Mestre das Batidas, Salve Jorge, mas qualquer boteco serve desde que tenha cerveja gelada.

 

22.00h Decidimos mudar de poiso e vamos para a Vila Madalena… para continuar a beber cervejas, agora acompanhadas por coxinha e bolinho de arroz com limão. Os meus favoritos são o Filial na Rua Fidalga e o São Cristóvão na Rua Aspicuelta. Podemos ficar no boteco até depois da saideira…outra canção que me vem à memoria. Dos Skank “tem um lugar diferente, lá depois da saideira”. Saideira é a última rodada, idealmente por conta da casa. A ideia é que tudo o que o garçon quer lá para as 02.00h da manhã é que lhe desamparem a loja de uma vez para fechar e ir para casa. Mas nós não queremos ir já para casa…

Sábado:

00.00h Na verdade, sugiro não ficar até a saideira no boteco em questão e ir até ao Ó do Borogodó também na Vila Madalena. O Ó do Borogodó tem um cantinho especial no meu coração. Foi o primeiro lugar de samba onde eu fui em São Paulo, acabadinha de chegar . Samba choro, não samba de escola…
Uma vez um patricinho paulistano (um betinho, portanto) descreveu-me o lugar mais ou menos assim “é um lugar muito simples, sabe, tem muito estudante comunista… (pausa)…” é como se não encontrasse realmente nada positivo para dizer, concluiu: “Olha, a cerveja é barata”… como dizem no Brasil: “é isso aí”, um lugar que mais parece uma garagem, ao pé de um cemitério, com paredes em tijolo à vista, com um póster da Dilma quando jovem revolucionária a la Che Guevara (bom isto foi antes dos panelaços e do “fora Dilma”, mas quando eu frequentava o lugar tinha lá o póster para confirmar aquilo dos comunistas!), um balcão, copos de cerveja a cheirar a pano húmido, mas quem é que quer copos quando se pode beber da garrafa e o melhor fica para último, tem sempre, mas sempre uma banda fantástica a tocar. Não sei se os clientes do local são realmente estudantes, muito menos comunistas, mas é sem dúvida uma turma muito descontraída e heterogénea, meio hipster, meio quero lá saber. Para quem gosta de um chorinho não há lugar melhor.

03.00h Casa 92 junto ao largo de Pinheiros…. é mais do que uma discoteca, perdão, uma balada, instalada numa casa, com pátio, primeiro andar, segundo andar, mesa de bilhar, terraço, vários sons consoante o andar e gente bonita por todo o lado… O cartão de sócio da Casa 92 chama-se “cartão família”, para entrares tu e os teus amigos. Estamos na casa da família…

05.00h Love Story, bem ao lado do Edifício Copam outro ex-líbris da cidade… Se a Casa 92 é a casa da família , o Love Story é, dizem, a casa de todas as casas. Seguramente dos poucos lugares que estão abertos a altas horas, quando tudo o resto já fechou. Dizem por aí, é o lugar onde a diversa fauna noturna de São Paulo vem terminar a noite. Tem uma reputação meio de mito urbano. Já ouvi dizer que o Love Story era um lugar onde tudo se podia comprar e vender, também ouvi dizer que é o lugar onde as prostitutas se vão divertir quando estão de folga. Uma reputação herdada de um tempo em que a violência, a droga, o abandono urbanístico do Centrão faziam dessa região de São Paulo uma zona interdita para a classe média acomodada. Mantém o look dessa época, alcatifa, bola de espelhinhos, porteiro com bigode. Como tudo na vida, o centro de São Paulo, o Centrão está a passar por um fenómeno de gentrificação e há muito patricinho, gringo e expat que já foram ao Love Story só para ver como é e contar como foi. Um acto aventureiro. Eu acho que os tipos deviam capitalizar nessa aura de má vida e perigo e fazer um merchandising à maneira, tipo “eu fui ao Love Story e sobreviví”. Fica a dica.

07.00h Galeria dos Pães… é uma “padoca” (designação carinhosa para padaria) que tal como nós funciona 24h sobre 24h. Coisas boas para ganhar energia ao fim da noite: x-salada (é um cheese burguer com alface… vá, trabalhem essa fonética… xiiiissssalada), misto quente, açaí na tigela, vitamina de frutas com aveia.

09.00h O que se pode fazer em São Paulo tão cedo?! Essa é uma das grandes contradições de São Paulo, uma cidade que tem tudo para nos fazer perder noite fora, num país que parece feito para acordar cedo e aproveitar as manhãs. Porquê? Porque no Brasil amanhece por volta das 06.00h e anoitece por volta das 18.30h ao longo de quase todo o ano. Porque o Brasil é um país tropical (outra canção!!) onde costuma fazer sol pela manhã e chover a cântaros pela tarde. Por isso, o que fazer então numa bela manhã de sábado em São Paulo?!

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Opção 1: Podemos ir até ao parque Ibirapuera ver as pessoas saudáveis a correr e a fazer exercício à beira do lago. O Ibirapuera é o grande espaço verde da cidade, o Central Park de SP, é também lá que se organiza a famosa bienal de arte de SP num espaço de exposições desenhado por, nem mais, nem menos, Oscar Niemeyer, o arquiteto de Brasília. Esse espaço é também muito popular entre os skaters e breakdancers que se costumam juntar aí.

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Opção 2: Como não nos estamos a sentir demasiado saudáveis, podemos ir ao Centrão. Paragem: Estação São Bento. Podemos começar por limpar-nos dos pecados da noite anterior visitando o Mosteiro de São Bento, que tem a particularidade de do lado esquerdo de quem entra na igreja, ali onde fica a loja onde vendem os terços e os livrinhos religiosos, terem também um balcão que vende…bolos. Bolos!!! E biscoitos também…
Munidos com os nossos biscoitos conventuais avançamos em direcção aos dois arranha céus famosos do centro: o edifício Bovespa e o Edifício Martinelli (infelizmente só estão abertos ao público durante a semana) e seguimos para a Rua 25 de Março onde se pode comprar um pouco de tudo, barato, meio feio, made in china ou “chingling” como lhe chamam aos electrónicos marca branca vindos da Ásia. Vamos perguntando de loja em loja como chegar ao Mercadão, o famoso mercado central.

 

11.00h O Mercadão é um edifício muito bonito desses de estrutura de ferro forjado e vitrais do principio do sec. XX. Visitar um mercado de manhã é sempre uma festa para os sentidos. Tantas cores e tantos cheiros. Todas as frutas exóticas do Brasil, que nem nunca ouvimos falar. Se formos sorridentes e pediros com jeitinho, os feirantes dão amostras grátis das iguarias à venda. Quando já tivermos com vergonha de continuar a pedir para provar frutas, é hora de subir ao segundo andar do mercado e dirigir-se ao Hooca Bar p
ara pedir a famosa sandes de mortadela (conselho de amiga: comprar pão antes, dessa forma, poderão redistribuir as quase 300g de mortadela que vem dentro de uma única sandes).IMG_20140922_151030-01

13.00h Traço de União junto ao Largo de Pinheiros. É possível ligar e reservar uma mesa para o Sábado ao almoço, mas a forma realmente improvisada de o fazer é plantar-se à porta as 13.30h, que é quando abrem o estabelecimento e pedir para arranjar uma mesa no momento. Assim temos a oportunidade de ver o local vazio, que na verdade não é muito mais do que um barracão enfeitado com fitas coloridas, pedir umas caipirinhas, pedir a feijoada e lá para as 15h que é quando a banda começa a tocar já estar almoçadinhos e prontos para continuar a pedir baldes com garrafas de cerveja enquanto vamos cantando “não deixa o samba morrer”…uma vez entrei lá de dia às 13.30h e sai lá de noite passava das 18h. É uma sensação meio estranha, que se resolve rumando para a Vila Madalena que não fica longe do Largo de Pinheiros e ir para outro boteco…no caso o Patriarca que é famoso pela carne assada.

18.00h Mas nós já estivemos nos botecos da Vila Madalena, certo? SP é demasiado grande para repetir programa, agora vamos é tomar um café para aclarar um pouco as ideias depois de tanta cerveja. Vamos à Paulista (à Avenida Paulista, outro ex-líbris da cidade) à livraria Cultura que está no Edifício Conjunto Nacional, outro ex-líbris. Tomamos o nosso café na livraria. No Rio estaríamos na praia a esta hora, em Sampa estamos num livraria… Damos uma volta pela Paulista, vemos o edifício do MASP. Dependendo da época do ano, a partir de Novembro, um bom plano de final de sábado é ir assistir a um ensaio de escola de samba (sim! O Carnaval começa a preparar-se ainda antes do Natal! Sim! Há escolas de Samba em São Paulo!) Uma boa opção seria ir até à Vai Vai que fica no centro, ou a Perola Negra que fica na Vila Madalena.IMG-20151023-WA0006-01

19.00h Hooray! Estamos a cumprir as nossas 24h, o que fazer para celebrar? Vamos a um
izakaya, um boteco tipicamente japonês no Bairro da Liberdade para tomar saquê. SP tem a maior comunidade japonesa a viver fora do Japão. Dizem que hoje em dia, há mais coreanos do que japoneses no bairro, mas a Liberdade continua a ser o referente cultural japonês na cidade. Vamos ao Izakaya Issa na Rua Barão de Iguapé, suficientemente pequeno, suficientemente discreto numa lateral entre a Av. da Liberdade e a Rua Galvão Bueno, e sobretudo bastante autêntico. É comum encontrar grupos a falar entre si em japonês nas mesas ao lado. Eu gosto de ficar ao balcão a ver a carta de saquês e com sorte ganhar alguns dumplins cortesia da casa.

22.00h Hoje há festa do Javali?! Não?! Querem jantar?! Vamos ao Spot?! Podemos beber um Dry Martini enquanto esperamos mesa…. Putz, meu!

Vamos avançar para as 48 horas… alguém quer ir mudar de roupa, rapidinho?!
Written by litlefishinthegarden

Siempre curiosa, a veces divertida. Abogada aburrida, viajera de afición y expatriada decidida. Fotógrafa perezosa. Wannabe antropóloga.