Andei a adiar esta viagem muito tempo…
Não sou muito de trekkings e o último que fiz foi quando fui enganada para subir o Cerro Provincia para “fazer um picnic” dizia um amigo nosso. Eu era a única pessoa a subir aquele monte com garrafas de vinho às costas e não água!!
Quando pensava em fazer um trekking na Patagonia… o meu primeiro pensamento era…

“Vou morrer!!”

O segundo pensamento era:

“Vão cair-me as unhas dos pés”

… ao recordar-me do filme/livro Wild da Cheryl Strayed que vai fazer um trekking sem ter grande experiência, pelo Pacific Crest Trail, e lhe acontece de tudo e aprende umas lições bem úteis.

Desta vez fui mais preparada!

Dia 1 – Viagem de Santiago a Puerto Natales:

Saímos de Santiago no voo das 5h00 da manhã. O voo dura quase 4 horas pelo que chegámos quase às 9h00 a Punta Arenas.

A primeira dica é fazer o que nós não fizemos:

Nós apanhámos um autocarro para Terminal de Punta Arenas e comprámos os nossos bilhetes para Puerto Natales. Não façam isso!!! Porque o autocarro (ônibus) passa novamente pelo Aeroporto para recolher passageiros, pois muitos vão para Puerto Natales, gastámos 3.000$ CLP sem necessidade nenhuma!
De Punta Arenas a Puerto Natales são 2h30 a 3h00 de caminho. Chegámos a Puerto Natales já perto das 13h30.
Chegando a Puerto Natales ficámos hospedados no Hotel We Are Patagonia – muito lindo e com um serviço muito simpático, já vinhamos recomendados para ficar cá por uns amigos e reforço a recomendação – e aproveitámos para visitar Puerto Natales e coordenar o passeio do último día!

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Puerto Natales é uma povoação de 20.000 habitantes e visita-se fácilmente caminhando. Está muito enfocada no turismo e é paragem de muitos visitantes antes de aventurar-se no Parque! Na zona do centro há vários restaurantes, supermercados para as últimas compras antes de ir para o Parque Nacional Torres del Paine, agencias de turismo e podes passear pela Costanera que tem umas fantásticas vistas ao Canal Última Esperanza.

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Dia 2 – Chegada ao Parque Nacional Torres del Paine e trekking até Campamento Italiano (e volta) – 15 km:

Contratámos a nossa viagem com a agência Vértice Patagonia. Reservámos tudo com eles: bilhete de autocarro, catamarán, tenda, colchonetas, sacos de dormir e pensão completa durante a nossa estadía no Parque. A Vértice Patagonia gere os refugios e campings de Paine Grande e Lago Grey e Lago Dickson. Há outra agência, a Fantástico Sur, que gere os refugios Torre Central, Torre Norte, Los Cuernos e El Chileno.

Em temporada alta (Verão) faz mais sentido contratar tudo com antecedência, mas na Primavera, claramente não há essa necessidade e parece-me que sairía mais barato ir contratando pelo caminho e decidindo o que fazer no momento.

Começámos o dia no Terminal de Puerto Natales para apanhar o autocarro das 7h30. Há várias agências e cada agência tem os seus horários de ida e de volta, na Primavera não há todos os horários, só às 7h30 e às 14h30. O Parque fica a 150km de Puerto Natales. Chegando ao Centro Administrativo pagas a tua entrada (5.000$ CLP para residentes (levem os RUTs) e 18.000$ CLP para turistas) e aí dão uma explicação sobre as regras do Parque.

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Aí quem quiser ir para a entrada mais perto das Torres apanha outro autocarro, os que vão entrar pelo Paine Grande, como nós, regressam ao mesmo autocarro em que vieram. O autocarro deixa-te no porto de Pudeto. O catamaran que atravessa o lago Pehoe (lago de cor calipso impressionante!), custa 15.000$ CLP (ida) e demora cerca de 30 minutos a chegar ao refugio de Paine Grande!
A nossa primeira noite estava reservada no Camping do Paine Grande que fica mesmo em frente assim que sais do barco!
É tão incrível e impactante cruzar o lago Pehoe e avistar os Cuernos por primeira vez que assim que desembarcas só te dá vontade de ir a percorrer… e isso fizémos! Deixámos as nossas mochilas no Camping e fomos fazer a trilha até ao Campamento Italiano.

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É uma trilha fácil de 7,5 km que demora cerca de 2h30 (ida). Pelo caminho vais ver vários miradores, para os cuernos, lago Skottsberg, uma ponte estilo “Indiana Jones” e chegas ao Campamento italiano.
Subimos um pouco mais até ver o Glaciar del Francês… a vista do Vale Francês é impressionante, mas como fizemos o trekking só de tarde era impossivel chegar até ao Campamento Británico, pelo que tivemos de regressar!

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O meu maior medo era gelar numa tenda, na Primavera, na Patagonia!

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Começou a chover ao fim do dia e estava um vento de uns 90km/hora. Mas felizmente não tive frio… isso sim, para dormir tive de usar os meus tampões nos ouvidos, pelo barulho do vento e chuva que pareciam que iam levar a tenda pelos ares!!

 

Dia 3 – Trekking até ao Campamento Grey e mirador do Glaciar Grey – 20km:

Levantámo-nos tranquilos, tomámos o pequeno almoço e pusémos as mochilas às costas rumo ao Campamento Grey, que fica junto ao Glaciar Grey. Estava a chover e sería a derradeira prova ao Gore-Tex das botas!
É um trekking de mediana dificuldade de 11,5 km e que segundo as indicações demora 3h30 a fazer.

Nós demoramos… 5 horas e fizemos 12,5 km entre os nossos desvios para tirar fotos!!

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Claro está que as indicações não contemplam tempo para as fotos, nem para o pic-nic! Mas valeu a pena “perder tempo” com as fotos nesse dia… porque no dia seguinte nem imaginávamos como ía ser!
É inesquecível o momento quando sobes um monte e começas a ver pequenos troços de gelo a flutuar no lago Grey… imaginas de imediato que estás a chegar… só não sabes que ainda nem a meio do caminho estás quando começas a vê-los!
Quando vês o glaciar Grey tudo parece mais perto! Pensas, já falta pouco… até que ves a placa com as indicações no Mirador do Lago Grey que te indica que ainda faltam + 6,5 km – Quê!??? Ainda!!??
Chegámos ao Camping já passava das 15h00 e como normal no clima na Patagonia, chegámos com um sol radiante!! Nem podíamos acreditar!
Apesar de cansados não ficámos satisfeitos com as vistas do Mirador Principal ao Glaciar Grey e um rapaz que conhecemos no refugio disse-nos que o melhor mirador estava a 2h00 subindo pela trilha em direção ao Campamento Paso.
Agarrámos forças e lá fomos nós! + 4km ida, + 4 km volta! Mas de subida!!! O caminho é espectacular, vais pelo meio do bosque, atravessas outra ponte estilo “Indiana Jones” por cima de uma cascata, sobes, sobes e sobes (e ves no mapa que continuas a fazer uma das trilhas mais fácil e não podes imaginar como serão essas marcadas em vermelho!!!) e chegas ao fim da trilha. O circuito do O ainda não está aberto nesta altura do ano, mas a trilha vai exactamente até chegar ao mirador!

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Chegámos ao mirador, gloriosos, tirámos as tão ansiosas fotos ao Glaciar Grey!! É imenso este glaciar que conecta com os Campos de Gelo do Sul… uma imensidão de brancura e reflexos azuis, que faz um eco ensurdecedor quando se desprendem pedaços de gelo!
Tivemos sorte de assistir a um desprendimento e ouvir os gritos de um grupo que estava a fazer um passeio de kayak mesmo ali em baixo e virão a onda de impacto aproximar-se (era um grupo de brasileiros, bem simpáticos! Todos sobreviveram sãos e salvos!).

Dia 4 – Regressar a Paine Grande para tomar o barco de volta e regressar a Puerto Natales – 12 km:

Dormi com os tampões nos ouvidos novamente, porque tinha um vizinho na tenda do lado que não parava de ressonar!! Aii… não devia ser permitido!!! E não, assobiar, não funciona!!
Essa noite tive frio… vesti toda a roupa que tinha, cobri o meu saco de dormir com todos os casacos que tinhamos e mesmo assim tive frio. Durante a noite pareceu-me ouvir chover um pouco, mas com os tampões nos ouvidos nem liguei!

De manhã quando acordo não queria acreditar: tudo branco!!

Tinha nevado toda a noite! (ou boa parte dela!)

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Que nos salve o Gore-tex novamente!! Tinhamos de fazer a trilha que nos demorou 5 horas no dia anterior, no máximo em 4 horas, para chegar ao catamaran que sai do Paine Grande às 12h30 em ponto. Ainda perguntámos se dava para apanhar o barco que te leva até ao Hotel Grey para escapar-nos à caminhada, mas devido às condições climatéricas e porque já tinhamos o transporte contratado do outro lado do Lago Pehoé para levar-nos para Puerto Natales não pudemos (mais uma desvantagem de ter contratado tudo desde o início).
Mochilas às costas e aqui vamos nós! Desta vez, sem paragens para fotos, nem pic-nics! “Parar é morrer!!!” Era o meu grito para animar a malta a não parar… não se animava muito… mas a verdade é que lá chegámos ao refugio do Paine Grande em 3h30!

Depois de atravessar o lago Pehoé tinhamos um transporte privado a nossa espera para levar-nos a Puerto Natales. Não faz falta contratar um transporte privado! Há vários autocarros esperando os vários “retornados” do trekking. A única vantagem (ou não) foi poder ter feito uma paragem na famosa “Cueva del Milodón”.
O Milodón era um animal herbivoro com umas 3 toneladas de peso, extinto há mais de 10.000 anos, que foi encontrado por un colonizador da zona.

Os meus amigos queriam matar-me!

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Depois de todo o fantástico que vimos e vivenciámos claramente a “cueva” não foi a cereja no topo do bolo que eles esperavam! Paga-se 2.000 CLP residentes e 5.000 CLP estrangeiros.

 

Dia 5 – Tour Glaciares Balmaceda e Serrano e regresso ao Aeroporto de Punta Arenas:

No último día, já em Puerto Natales, decidimos fazer o tour que contratámos no primeiro día, o famoso tour aos Glaciares Balmaceda e Serrano. É um tour de um dia inteiro que atravessa o Fiorde Última Esperanza (80.000$ CLP). Chama-se assim, porque o navegador Juan Ladrillero estava perdido à procura de uma saída para o Pacífico, a sua última esperança, e cruzou todo o fiorde até perceber que era um canal sem saída!

Acho que é o único tour baby-friendly respondendo às várias perguntas dos meus amigos com bebés.

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Nós fizemos mesmo um esforço para não ir a dormir grande parte do caminho (claro que vínhamos cansados dos 47 km caminhados em 48 horas).
O catamaran vai a 20km/hora (lento… especialmente depois do ritmo com que caminhámos nas Torres del Paine) e passa pelo Glaciar Balmaceda. Depois faz-se uma caminhada fácil de 1 km aproximadamente até ao Glaciar Serrano que tem várias estacas que marcam o retrocesso deste glaciar desde os anos 40, 60 e 80. Inclui beber um pisco sour com gelo do glaciar e termina com o típico “cordero magallanico” assado no espeto!! Hummm de lamber os dedos!!

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Às 20h00 sai o último autocarro para Punta Arenas (através da companhia Buses Fernandez – atenção que depende das companhias e segundo nos disseram este é a última que parte!) e às 22h30 já estávamos no aeroporto (se avisares, o autocarro deixa-te directo no aeroporto) prontos para embarcar de volta para Santiago!

Dava perfeitamente para passar mais uma noite no parque em vez deste último tour (mas Agencia Vertice Patagónia disse-nos que era muito apertado), mas dá perfeitamente, porque quando fomos visitar a famosa “Cueva do Milodón” às 16h00 já estávamos em Puerto Natales, com a visita incluida!

Depois de perder o medo ao trekking (e espero não me arrepender do que estou a dizer 😉 ) ficou a vontade de fazer o outro lado do circuito do W. Em total fizemos como uma “pata e meia” do W em 48h. A outra visita que também me ficou pendente foi a do Glaciar Perito Moreno, mas os tours saem de Puerto Natales as 7h00 e regressam as 22h00, não dando qualquer possibilidade de apanhar o autocarro de regresso a Punta Arenas (que sai às 20h00 o último).

É definitivamente para voltar! 🙂

 

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Written by racingmackerel
Portuguesa, Expat, viajeira apaixonada. Extrovertida, Sensorial, Emocional e Percetiva. Financeira de profissão. Psicóloga por curiosidade. Emigrante e viajante por paixão. Idioma: portuñol.