Quando me falavam do Eje Cafetero imaginava algo estilo vinhas do Douro ou como as vinhas que vi no Chile, versão café.

Extensões de platanções de café por todas as montanhas, vistas imensas de plantas com baguinhas vermelhas até ao fim do horizonte, montes e montanhas cobertos de café até perder de vista, com o Juan Valdéz montado na mula por largas distâncias a vigilar as terras…

Pois… não é bem assim!

A maior parte das platações de café do Eje cafetero são pequenas plantações familias de menos de uns 5 quarteirões.

Em realidade são pouco mais de 2.500 familias as responsáveis pelo cultivo tradicional do café. Um 95% das “fincas” ou fazendas são pequenas extensões na sua maioria fragmentadas exploradas familiarmente.

Depois do primeiro dia de passeio em que me dou conta que não tinhamos esbarrado com nenhuma finca de café, fomos à caça delas!

Procurei na internet por fincas de café perto de Pereira e encontrei no TripAdvisor esta finca com muito bons reviews: Don Manolo Café.

Acordámos pachorrentamente, demos uma volta por Pereira (para concluir que efectivamente não tem nada para ver) e fomos até à finca sem nada marcado a ver como era e se dava para fazer algum tour/cata de café…

Foi assim que conhecemos o Don Manolo e o seu filho.

Manuel, o filho de Don Manolo, muito simpáticamente nos explicou que faz dois tours por dia, um às 9h e outro às 14h. O ideal é reservar, mas recebeu-nos muito bem e juntámo-nos ao tour das 14h. Custa 30.000 COP por pessoa, mas vale muito a pena!

Manuel já teve mil negócios como diz ele, de formação é veterenário, mas a paixão pelo café corre-lhe nas veias!

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Manuel explicou-nos a história do café, como chegou à Colômbia vindo de África, e como a economia do café tem mutado. A exportação do café na Colômbia chegou a ser 95% das exportações do país, mas depois de uma praga nos anos 90 Colômbia viu-se obrigada a diversificar a produção.

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A Federação Nacional de Cafeteros da Colômbia tem um papel muito importante na regulação do preço do café, na sua exportação, certificação de qualidade e investigação de novos métodos para garantir a produção.

Não é obrigatório pertencer à Federação, mas quem tem mais de 1000 plantas pode pertencer e assim tem garantida a compra da sua produção. A Federação compra o café aos seus associados e é responsável pela sua venda ficando com 0,06 cêntimos de dólar por cada libra (12,5 kg).

Fomos literalmente até às traseiras da casa grande ver as plantações de café.

Agora em Outubro/Novembro é a época principal de colheita do café. Existe uma outra temporada em Março/Abril. Mas praticamente durante todo o ano é possível ver as várias fases do café.

Em flor:

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Verde ainda:

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E o vermelhinho cor de vinho que é o ideal para colher:

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Uma vez colhido o café passa por uma máquina que separa o grão da pulpa. Essa pulpa é por muitos considerada um desperdício da produção, algo que não serve para nada, mas nos últimos anos tem vindo a descobrir-se que tem incrivéis níveis de antioxidantes e pode mesmo ter um valor potencialmente superior ao do grão!

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Uma vez separado o grão da pulpa e lavado é o momento de secar!

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O ideal é chegar a um nível de humidade entre 10% e 11,5% antes de tostar!

Nesta fase da produção o grau é conhecido como “café-ouro”. Primeiro pela sua cor douradinha e segundo porque em outros tempos foi mesmo usado como moeda de troca!

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Finalmente, fomos tostar o café!!!

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Não, não fomos no famoso jeep Willy porque para tostar o grão também era mesmo ali ao lado!

Mas ficámos a saber que o tão famoso jeep Willy, Yipao como lhe chamam ou “mula mecânica” porque efectivamente veio substituir as mulas como meio de transporte, invadiram a região do café nos anos 50 e eram jeeps da segunda guerra mundial fabricados pelos EUA que eram especialmente ligeiros, 4 por 4 e resistentes para transitar por caminhos especialmente dificeis!

Fácilmente foram adaptados pelos caficultores para que pudesse carregar elevadas cargas e até aos dias de hoje se veem transitar pelo Eje Cafetero, seja com carregamentos de café, frutas ou outros cultivos, ou mesmo como transporte de pessoas!

Voltando ao tema da tostadura: o nível de tostadura do café é também determinante do sabor!

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Fiquei a perceber também porque o café espanhol sabe tão mal a queimado!

É precisamente porque durante o proceso de tostadura os espanhois adicionam açucar. Isso faz com que o grão se veja mais brilhante e bonito e dure mais, mas o sabor fica mais amargozo!

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Disfrutámos de bom café, provámos diferentes formas e intensidades do mesmo café, disfrutamos da sua fragância (logo a seguir a ser moído) e do seu aroma (depois de feito!), sempre acompanhado por bolinhos ou gelado caseiro feito pela mãe do Manuel!

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Se procuram um tour a uma finca de café, recomendo 100% a Finca de Don Manolo!!!


Algumas curiosidades sobre o café:

  • O café que se cultiva na Colômbia é o arábico, que veio de África, entrou pela Venezuela e finalmente se instalou na Colômbia.
  • A Colômbia é o segundo maior produtor de café do mundo. O Brasil é o primeiro!
  • O café colombiano é um café que se cultiva em “altitude” entre 1000 e 2000 metros, a essa altitude há menos pragas!
  • A Alemanha é o primeiro importador de café do mundo… mas não o consome!! É também o primeiro exportador de café depois de transformado (tostado, moído…) – sempre nos surpreendem estes alemães!
  • Os maiores consumidores de café do mundo per capita são os Finlandeses!! Nós os portugueses ocupamos o 7º lugar no ranking.
  • A marca/cadeia Juan Valdez é uma marca e história criada pela Federação Nacional de Caficultores Colombianos. O Juan Valdez não existe! É uma personagem criada representativa da população produtora de cafés na Colombia para posicionar o café colombiano como um dos melhores do mundo!
  • O dinheiro gerado pela cadeia Juan Valdéz vai para um fundo “do café” que ajuda os caficultores e faz investigação na área do café. Chegaram a ter dinheiro suficiente no fundo para comprar um 20% do Starbucks há uns anos atrás… mas acharam esta ideia demaisado louca e acabaram por não fazê-lo!
  • Starbucks só entrou na Colômbia depois do acordo com a Federação em que o café do dia só pode ser colômbiano!

 

Written by racingmackerel
Portuguesa, Expat, viajeira apaixonada. Extrovertida, Sensorial, Emocional e Percetiva. Financeira de profissão. Psicóloga por curiosidade. Emigrante e viajante por paixão. Idioma: portuñol.